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Será a simpatia uma questão central quando viajamos? Mais um artigo do nosso colaborador Pedro B. para os leitores do Bigviagem refletirem e opinarem nos comentários.

Será a simpatia uma questão central quando viajamos?

A simpatia de um povo é normalmente um dos principais atributos que servem de âncora a uma viagem. Embora não exista um medidor rigoroso desta característica, é ponto assente que emissor e receptor de uma opinião sobre simpatia, estejam em sintonia. Recentemente tive o prazer de ler um artigo aqui no Bigviagem que falava sobre a simpatia dos europeus, e sendo eu um orgulhoso e convicto europeu, pus-me a reflectir sobre este tão instável e universal instrumento de medição de um povo de um pais, neste caso de um continente.

Será a simpatia uma questão central quando viajamos?

O artigo em si tem, desde já, um detalhe altamente positivo. Ele é escrito estritamente de um ponto de vista pessoal, resultado de um conjunto de experiências vividas e reinterpretadas pelo seu autor. Partilhar estas opiniões tem, portanto, todo o sentido e, devo dizer, é muito divertido e, direi mesmo, instrutivo, saber o que os outros povos pensam sobre nós, europeus. Mas foi ao ler os comentários dos atentos leitores deste blog que me levou a escrever este artigo, pois foi neles que pude constatar opiniões diversas, emitidas de várias geografias sobre a nossa suposta simpatia europeia. Não se trata aqui de concordar ou discordar, mas sim questionar-me porque é que alguns compatriotas meus reforçam, com bastante veemência, uma característica negativa que, em última análise, também os definem e caracterizam enquanto europeus e, por outro lado, tentar perceber porque é que alguns leitores brasileiros tentam desculpar a nossa antipatia europeia através de comparações de antipatias entre os dois continentes?

Urge começar pela própria definição de simpatia. O que é isso? Um sorriso no fim de uma frase? Uma total disponibilidade para ajudar o próximo seja em que situação for? Um esforço em falar um idioma comum? Partilhar referenciais culturais comuns? Falar baixo? Falar alto? Dar um lugar numa fila?

Não consigo parametrizar de uma forma rigorosa, mas consigo filtrar algumas características que me são agradáveis, que me são simpáticas. Por exemplo, gosto do esforço dos outros povos em praticar um idioma comum, da mesma forma que me esforço nesse sentido. Esta característica traz-me boas recordações de um povo. Mas, já passei por situações em que a comunicação por idioma era absolutamente impossível e, no entanto, consegui comunicar, por gestos, sorrisos, expressões faciais etc. Guardo esta recordação muito mais vividamente do que as outras decorrentes de uma comunicação por idioma fácil e sem qualquer problema.

Mais acrescento, senti um grau de autenticidade e mesmo exclusividade que não senti na outra situação. Claramente o meu interlocutor que não falava uma língua em comum comigo foi muito mais simpático do que todos os outros que não tiveram necessidade de o fazer. Neste caso a minha avaliação da simpatia assentou na taxa de esforço empreendida quer por mim, quer pelo meu interlocutor. E a pergunta que se coloca obrigatoriamente é: Deverei considerar este povo cuja comunicação verbal foi nula mais antipático, ou simpático, do que os outros povos? Não, definitivamente, não, pois estaria a avaliar todo um povo e uma cultura a partir de uma experiência pessoal, localizada e momentânea.

Ainda servindo-me desta premissa da comunicação verbal, importa explorar uma situação absolutamente inversa, que também a vivi. Ao tentar comunicar em inglês com vários interlocutores, eles ouviam a pergunta e respondiam-me na sua língua materna. Porque é que faziam isto? Não sei e irritava-me sobejamente. Percebiam a minha alocução e ainda davam-se ao trabalho de perderem o seu precioso tempo a responderem-me num idioma impenetrável para mim. Claramente uma situação altamente antipática e merecedora de reprovação uma vez que possuíam forma de me ajudarem e não o quiseram fazer. Será este povo merecedor de uma etiqueta de antipatia decorrente desta infeliz situação? Não deveria eu, estando num pais que me acolhe, estar preocupado em falar no idioma que vigora? O facto de me dirigir numa língua que não é a deles pode revelar alguma preguiça e desatenção da minha parte e em determinadas culturas isso pode definir o curso de uma interação.

Enfim, poderia estar aqui a partilhar como todos vós um sem número de experiências e manipulá-las nos dois sentidos, porque, de qualquer perspectiva, podemos encontrar uma razão válida que justifique a nossa simpatia ou antipatia, porque, simplesmente, a simpatia não é abstracta. Ela depende de um conjunto de factores que têm a ver com a nossa cultura, a nossa educação e as nossas experiências. A simpatia é, portanto, uma opinião, que, quanto a mim, vale a pena ser partilhada, porque tem utilidade, no entanto, não pode o principal pilar que define ou caracteriza um pais, um povo ou um continente inteiro.

Nós, europeus, portugueses, somos simpáticos à nossa maneira. Caberá aos povos que nos visitam tentar descodificar essa maneira e assim tirar o melhor proveito possível de uma estadia neste fascinante continente. Concordo que existem situações inultrapassáveis em qualquer parte do mundo. Posso compreender as diferenças no atendimento que se fazem nas lojas ou nos serviços públicos. Condeno todas as manifestações de descriminação. Mas, por favor, a identidade de um povo, de um continente, não pode estar refém de percepções sobre um conceito tão volátil como a simpatia.

Julgo também que se confunde muitas vezes eficácia com antipatia. Na verdade, nós enquanto turistas, viajantes, sentimo-nos especiais e queremos toda a atenção. Quando não a temos, sentimo-nos frustrados e descarregamos a nossa raiva naquele pais, naquele povo. Não é justo. Em última análise somos nós, enquanto turistas, que estamos a nos intrometer e embora mereçamos o mesmo tratamento, muitas vezes não nos apercebemos que o que estamos a fazer é a atrapalhar um conjunto de códigos instituídos e, esses sim, verdadeiramente definidores de um povo, de um continente.

7 COMENTÁRIOS

  1. Antes de mais, quero agradecer a todos o vosso interesse neste artigo. É muito gratificante obter reações e respostas.
    Pretendi com este artigo expressar uma posição que foge do habitual. Por vezes a simpatia é uma coisa extremamente difícil de descodificar, de acordo com as experiências que já vivenciei ao longo das minhas viagens. Em várias ocasiões, o que começou como uma situação simpática, terminou numa situação de logro e engano. A simpatia serviu como trampolim para o engano e a mentira. Daí a minha intenção ao vos apresentar esta reflexão.
    O Sr. Joaquim Severo aponta uma situação pela qual todos nós já passamos por ela. É uma situação desagradável que nos põe os cabelos em pé. O dono do excelente restaurante de Alcobaça, tenho a certeza, se presenciasse essa situação também ficaria com os cabelos em pé, pois estaria a assistir à morte lenta do seu negócio. O empregado que serviu os seus amigos tem, claramente, poucas ou nenhumas qualificações ou sequer vocação para exercer essa profissão. Foi um momento infeliz, desagradável, que ninguém merece, mas que aconteceu, responsabilidade exclusiva de um indivíduo, claramente, descontente com a sua vida e que aproveita o esforço dos outros para manifestar as suas frustrações. Foi um ato isolado, infeliz é certo, mas isolado. Merece uma condenação. Mas será suficiente para classificar e destruir toda a tradição de bem receber que temos em Portugal? Não creio e foi essa a minha intenção ao escrever este artigo.
    Tal como a Srª Helena Ramos expressa no seu comentário, todos os povos têm a sua maneira de receber. De uns gostamos, de outros gostamos menos e invariavelmente queremos ser sempre bem recebidos, mas por vezes isso não acontece. Concordo com grande parte dos seus comentários, no entanto, tenho de mostrar a minha discordância quando afirma que com a crise que assola a Europa, devíamos estar a beijar os pés dos turistas. Embora reconhecendo que, mais do que nunca, o turismo é um sector estratégico e fundamental na nossa sustentabilidade enquanto país e nação, “beijar os pés do turista” remete para um radicalismo que pouco abona a experiência da viagem e só contribui para um artificialismo que cada vez mais é criticado. A Europa não é um parque de diversões, mas sim um repositório de história e cultura de uma relevância extraordinária à disposição de todos.
    Concordo igualmente com os comentários da Srª. Nana. Sorrir é importante e um sinal inequívoco de simpatia e empatia. Mas, por vezes, quando não o obtemos, poderá ser por razões cuja descodificação nos é impossível. Tolerância também poderá ser uma característica importante, nos dois sentidos. Para a má vontade, defendo uma tolerância zero.
    Concordo também com o Sr. Hélio Moraes. Simpatia contribui para a impressão que ficamos de um povo. Mas uma impressão funciona como uma espécie de instantâneo, de fotografia polaroid. Traduz sempre as nossas experiências que transmitiremos. Mas não deixam de ser impressões e este é o ponto fulcral deste artigo.
    Mais uma vez, muito obrigado a todos pela vossa contribuição. Desde já ficam convidados a comentarem os meus próximos artigos, que tentarei que sejam polémicos também, assim como os meus anteriores que estão publicados neste blog.

    • Olá Sr. Pedro,
      Meus agradecimentos por responder ao meu comentário, vejo que o senhor é um diferencial.
      Saudações.

      • Ora essa, Sr. Joaquim.
        Eu é que lhe agradeço o seu tempo despendido com o meu artigo.
        Bem haja e contamos com mais comentários seus aos artigos publicados no BigViagem

  2. Não sei se simpatia é fator fundamental para escolhermos o destino de viagem, mas que com certeza é a impressão que fica de um povo não tenho dúvidas.

  3. Eu sou mais radical. Quem não sabe sorrir, não deve ter comércio seja de que tipo for, hotel, café, loja de roupa, ou outro comércio qualquer. Não é o comerciante, o garçom, a balconista que faz um favor ao cliente, é o cliente que faz favor em comprar, porque lojas há milhares.
    Por isso, cara feia é espanta mosca.
    A gentileza cabe em qualquer ocasião essencialmente quando lidamos com pessoas que nos trazem algum tipo de lucro. Não fui bem tratada? Não volto nunca mais.
    Se todos fizessem isso, vamos ver onde eles iam enfiar a cara feia e a má vontade.

  4. Eu como turista quero ser bem recebida.
    Porém também acho que cada povo é uma cultura e como é natural, cada povo entende simpatia de um jeito diferente. Estive na Espanha e achei um povo rude mas muito divertido. Na Itália, adorei, foram muitos simpáticos e sorridentes comigo. Em Portugal senti um pouco de rispidez.
    Costumo “beber” o que me faz bem, o que não presta jogo fora. Não vou viajar para ficar estressada, se alguém tem que ficar estressado que fiquem eles, afinal sou eu que estou levando para o país deles o meu rico dinheirinho. Com a crise que anda na Europa eles deviam era beijar o pé do turista. Aqui no Brasil o povo tem mania de se abrir como para queda para o turista, acho ótimo quando vão para o exterior e levam uns coices na fuça. Quem sabe assim aprendem a ser menos babacas com os turistas que vem aqui.

  5. Caro Sr. Pedro B.
    Sou filho de portugueses, nascido em França.
    Com frequência leio o Bigviagem.
    Simpatia? Penso eu, que esperar simpatia de um povo é ser bem recebido como deve ser, essencialmente num país que se diz receptivo ao turismo e onde umas das fontes de receitas seja o turismo. Em França não espere simpatia. Em outro país da Europa? Também aconselho que não devem esperar.
    Há um mês recebemos um casal cá em Portugal e fomos a um excelente restaurante em Alcobaça, o meu amigo, disposto a experimentar alguns petiscos variados pedia um de cada vez ao garçon. Pedia, comia, esperava poucos minutos e solicitava outra iguaria. Pelo terceiro pedido, o garçon vira-se para ele e diz algo como…..OIÇA LÁ meu senhor, acho bom pedir logo tudo de uma vez porque não estou cá para vir servi-lo a toda hora.
    Mas o que é isso???????????????
    Já não se pode estar a uma mesa entre amigos, em férias e com tempo para degustar o que se deseja, porque o pobre homem não pode ir e vir atender a mesa? Mas está tudo doido ou o que? E querem depois reclamar da crise?
    O Sr. Pedro B. acha isso simpático?
    O Sr. Pedro B. Acha simpático entrar num café e estar a espera de ser atendido porque os empregados estão a comentar o golo do Cristiano Ronaldo?
    Se o Sr. Pedro B. acha, eu mesmo sendo EUROPEU, não acho.

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