No Sudão do Sul, o país mais jovem do mundo, uma criança nascida em 2024 pode esperar viver, em média, 55 anos. Terá uma probabilidade de 9% de morrer antes dos cinco anos. Se sobreviver à infância, a hipótese de completar o ensino secundário é inferior a 10%. O rendimento anual per capita ronda os 400 dólares — pouco mais de um dólar por dia.
Os rankings dos piores países do mundo para viver não são exercícios académicos abstractos. Medem realidades que afectam centenas de milhões de pessoas: a probabilidade de morrer de doença tratável, de perder a casa num conflito armado, de ver os filhos crescer sem escola nem perspectivas. Compreender estas métricas ajuda a contextualizar as notícias que chegam de lugares distantes.
Diferentes organizações usam diferentes critérios. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Nações Unidas combina esperança de vida, educação e rendimento. O Armed Conflict Location and Event Data Project (ACLED) avalia a violência e os conflitos. A Economist Intelligence Unit (EIU) classifica cidades pela habitabilidade. Cada ranking ilumina uma faceta diferente do sofrimento humano.
Índice de Desenvolvimento Humano
O IDH varia entre 0 e 1, com os países mais desenvolvidos a aproximarem-se de 1. A Suíça lidera o ranking de 2024 com um índice de 0,967. No extremo oposto, o Sudão do Sul regista 0,385. A diferença traduz-se em vidas concretas: um suíço pode esperar viver 84 anos com acesso a cuidados de saúde universais; um sul-sudanês vive em média menos 29 anos, frequentemente sem água potável ou electricidade.
Os dez países com pior IDH são todos africanos, com a excepção do Iémen. O Sudão do Sul ocupa a última posição desde a independência em 2011. A guerra civil que eclodiu em 2013 matou cerca de 400.000 pessoas e deslocou 4 milhões. A economia colapsou. As instituições nunca chegaram a consolidar-se.
A Somália regista o segundo pior índice, com 0,380. O país não tem governo central efectivo desde 1991. O grupo terrorista Al-Shabaab controla vastas áreas do território. As secas recorrentes provocam crises alimentares que afectam milhões de pessoas. A República Democrática do Congo, apesar dos vastos recursos naturais — cobalto, cobre, ouro, diamantes — figura na terceira posição. Os conflitos armados no leste do país duram há décadas.
O Níger, o Chade, a República Centro-Africana, o Mali, o Burquina Fasso e a Guiné completam a lista dos dez piores. Cada um enfrenta uma combinação de factores: pobreza extrema, conflitos armados, instabilidade política, alterações climáticas que agravam secas e inundações.
Países mais perigosos
O ACLED avalia o perigo com base em quatro critérios: letalidade dos conflitos, risco para civis, dispersão geográfica da violência e número de grupos armados activos. Os resultados de 2024 reflectem uma deterioração global: o número de mortes em conflitos aumentou pelo terceiro ano consecutivo.
O Sudão ocupa a primeira posição. O conflito entre as Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido, iniciado em abril de 2023, já causou mais de 15.000 mortes documentadas e deslocou 10 milhões de pessoas. Cartum, a capital, tornou-se zona de combate. Os hospitais foram bombardeados. A fome espalha-se nas áreas cercadas.
A Ucrânia permanece no segundo lugar desde a invasão russa de fevereiro de 2022. Os territórios palestinianos subiram para terceiro após outubro de 2023. A Síria, onde a guerra civil dura desde 2011, mantém-se no quarto lugar. O Afeganistão, sob governo talibã desde 2021, ocupa o quinto.
A subida mais dramática é a do Equador, que saltou 36 posições num único ano. Os cartéis de droga mexicanos e colombianos expandiram as operações para o país, transformando cidades pacíficas em zonas de guerra. O presidente declarou estado de emergência após a tomada de um canal de televisão em directo por homens armados.
Piores cidades para viver
A Economist Intelligence Unit publica anualmente um ranking de habitabilidade urbana que avalia estabilidade, saúde, cultura, ambiente, educação e infraestruturas. Damasco, capital da Síria, ocupa a última posição há vários anos consecutivos. A cidade sofreu bombardeamentos intensos durante a guerra civil, embora os combates tenham diminuído desde 2018.
Trípoli, na Líbia, figura na segunda pior posição. Desde a queda de Muamar Kadafi em 2011, o país divide-se entre governos rivais apoiados por milícias diferentes. Argel, apesar da relativa estabilidade da Argélia, surge surpreendentemente em terceiro lugar devido a deficiências em infraestruturas e serviços.
A consultora Mercer usa critérios diferentes e chega a resultados ligeiramente distintos. No seu ranking de 2024, Cartum ocupa a última posição devido ao conflito em curso. Bagdade, no Iraque, figura em segundo lugar apesar das melhorias desde a derrota do Estado Islâmico. Bangui, capital da República Centro-Africana, completa o pódio negativo.
Piores países para expatriados
O ranking InterNations Expat Insider avalia a experiência de estrangeiros que vivem e trabalham em diferentes países. Os resultados desafiam alguns pressupostos: países desenvolvidos figuram frequentemente nas piores posições.
O Kuwait lidera a lista negativa. Apenas 37% dos expatriados dizem estar satisfeitos com a sua vida no país. As queixas incluem dificuldade em fazer amigos locais, discriminação no trabalho, burocracia opressiva e falta de actividades de lazer. As temperaturas que ultrapassam os 50 graus no verão agravam o desconforto.
A Itália surge numa posição inesperadamente baixa. O país atrai milhões de turistas, mas os expatriados queixam-se de salários baixos, burocracia kafkiana, dificuldade em encontrar emprego e mercado imobiliário inacessível. O charme que seduz em férias torna-se frustração no quotidiano.
O Japão decepciona muitos estrangeiros pela barreira linguística. Poucas pessoas falam inglês fora de Tóquio e Osaka. Abrir uma conta bancária ou arrendar um apartamento sem falar japonês é praticamente impossível. A cultura de trabalho excessivo — o karoshi, morte por excesso de trabalho, é um fenómeno reconhecido — choca com expectativas ocidentais.
Malta, pequena e densamente povoada, frustra expatriados com o trânsito caótico, a escassez de habitação e a subida vertiginosa dos preços desde a adesão à União Europeia. O Luxemburgo, um dos países mais ricos do mundo, aparece igualmente mal classificado: 71% dos expatriados queixam-se do custo de vida proibitivo.
Os factores comuns
Os países que aparecem repetidamente no fundo dos rankings partilham características comuns. Os conflitos armados são o factor mais devastador: destroem infraestruturas, matam e deslocam populações, impedem o funcionamento de serviços básicos. O Sudão, a Síria, o Iémen e a Somália ilustram este padrão.
A pobreza extrema perpetua-se em ciclos difíceis de quebrar. Sem escolas, as crianças não adquirem competências. Sem estradas, os produtos não chegam aos mercados. Sem hospitais, doenças tratáveis tornam-se fatais. O Níger, o Chade e a República Centro-Africana demonstram como a pobreza estrutural resiste a décadas de ajuda internacional.
A instabilidade política impede a consolidação de instituições. Golpes de estado, eleições fraudulentas e governos corruptos drenam recursos que deveriam servir a população. O Mali e o Burquina Fasso viveram múltiplos golpes militares nos últimos anos, cada um prometendo resolver os problemas causados pelo anterior.
As alterações climáticas agravam todos estes factores. As secas no Corno de África tornaram-se mais frequentes e intensas. As inundações no Sahel destroem colheitas e infraestruturas. Os países mais pobres têm menos capacidade de adaptação e sofrem desproporcionalmente os efeitos de emissões de carbono que mal contribuíram para criar.
Sinais de esperança
Os rankings capturam um momento no tempo, não um destino inevitável. Países que figuravam no fundo das listas há décadas conseguiram melhorias significativas. O Ruanda, devastado pelo genocídio de 1994, tornou-se um dos países africanos com melhor governação e crescimento económico mais rápido. A Etiópia registou progressos notáveis entre 2000 e 2018, embora o conflito no Tigré tenha revertido alguns ganhos.
O Botsuana, no momento da independência em 1966, era um dos países mais pobres do mundo. A gestão prudente das receitas dos diamantes transformou-o numa das economias africanas mais estáveis. A Coreia do Sul, devastada pela guerra em 1953, é hoje uma potência tecnológica. Nada nestes rankings é permanente.
As organizações humanitárias trabalham nos países mais difíceis do mundo, muitas vezes em condições de risco extremo. Médicos Sem Fronteiras opera em zonas de conflito. O Programa Alimentar Mundial distribui alimentos onde a fome ameaça. O ACNUR protege refugiados que fugiram das piores crises. O trabalho é ingrato e os progressos frequentemente invisíveis, mas existe.
Para os viajantes, estes rankings servem de alerta, não de condenação. A maioria dos países listados desaconselha visitas turísticas nas circunstâncias actuais. Mas as circunstâncias mudam. E quando mudam, os viajantes que chegam primeiro encontram culturas, paisagens e hospitalidade que recompensam a espera.
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