A Catedral de Santa Sofia de Kiev ergue-se no centro da capital ucraniana há quase mil anos. Os seus mosaicos bizantinos, aplicados por artesãos de Constantinopla no século XI, brilham com o mesmo ouro que iluminava os fiéis quando os príncipes de Kyivan Rus governavam estas terras. A catedral sobreviveu a invasões mongóis, ocupações polacas, domínio soviético e duas guerras mundiais. Continua de pé.

As principais cidades da Ucrânia guardam uma história que poucos turistas ocidentais conhecem. O país, o segundo maior da Europa em extensão territorial, permaneceu durante décadas na sombra da União Soviética e, depois da independência em 1991, lutou para se afirmar no mapa turístico mundial. Quem visitou antes de 2022 descobriu cidades com arquitetura notável, gastronomia surpreendente e preços acessíveis.

O conflito em curso desde fevereiro de 2022 alterou dramaticamente as possibilidades de viagem. Algumas cidades, particularmente no oeste do país, mantêm uma aparência de normalidade. Outras sofreram danos extensos. Antes de planear qualquer visita, é essencial verificar as condições de segurança junto das autoridades competentes e avaliar cuidadosamente os riscos.

Este guia documenta o património cultural e turístico das principais cidades ucranianas. Serve como referência para quando a paz regressar e como testemunho do que estas cidades representam.

Kiev (Kyiv)

A capital ucraniana estende-se ao longo das margens do rio Dniepre, com colinas arborizadas de um lado e planícies do outro. Quase 60% da área da cidade é coberta por parques e jardins, tornando Kiev uma das capitais mais verdes da Europa. Os castanheiros que ladeiam as avenidas principais florescem em maio, cobrindo os passeios de pétalas brancas e rosa.

O Mosteiro das Cavernas de Kiev, fundado em 1051, é o local religioso mais importante da Ucrânia. O complexo estende-se por uma colina que domina o Dniepre e inclui igrejas de cúpulas douradas, museus e um labirinto de galerias subterrâneas onde repousam os corpos mumificados de monges medievais. Os peregrinos descem às cavernas com velas, rezando diante dos relicários de vidro.

A Praça da Independência, conhecida como Maidan, ocupa o centro da cidade. Foi aqui que os ucranianos se reuniram em 2004 durante a Revolução Laranja e novamente em 2013-2014 durante o Euromaidan. Os edifícios que a rodeiam mostram uma mistura de estilos, desde o neoclássico do Conservatório até ao soviético do Hotel Ucrânia.

A descida de Santo André, uma rua empedrada que desce da Cidade Alta para o bairro histórico de Podil, concentra galerias de arte, lojas de antiguidades e a Igreja de Santo André, obra-prima barroca de Bartolomeo Rastrelli, o mesmo arquitecto que desenhou o Palácio de Inverno de São Petersburgo.

Lviv

O centro histórico de Lviv sobreviveu às duas guerras mundiais praticamente intacto, o que lhe valeu a classificação como Património Mundial da UNESCO. As ruas empedradas, os pátios renascentistas e as fachadas barrocas criam um ambiente que lembra mais a Europa Central do que o Leste. A cidade passou por mãos polacas, austro-húngaras e soviéticas antes de se tornar ucraniana, e cada período deixou a sua marca.

A Praça Rynok, coração de Lviv desde o século XIV, é rodeada por edifícios de quatro andares com fachadas decoradas. No centro, a Câmara Municipal ergue uma torre de 65 metros que oferece vistas sobre os telhados da cidade velha. Os cafés que ocupam os pisos térreos servem o melhor café da Europa Oriental, uma tradição que remonta ao período austro-húngaro.

Lviv tem mais de 60 igrejas. A Catedral Arménia, fundada no século XIV pela comunidade arménia que se estabeleceu na cidade, combina elementos góticos, renascentistas e orientais. A Catedral Latina, vizinha da praça principal, guarda capelas barrocas ricamente decoradas. A Igreja da Transfiguração preserva uma iconóstase de madeira do século XVII.

O Cemitério de Lychakiv, fundado em 1787, funciona como um museu de escultura funerária ao ar livre. As campas de poetas, músicos, cientistas e soldados dispersam-se por colinas arborizadas, testemunhando a história conturbada da região.

Odessa

A Escadaria de Potemkin desce 142 metros desde o centro de Odessa até ao porto do Mar Negro. Os 192 degraus, construídos em 1841, foram desenhados com uma ilusão de óptica: vistos de baixo, parecem ter a mesma largura em toda a extensão; vistos de cima, os degraus inferiores parecem mais estreitos. O realizador Sergei Eisenstein imortalizou a escadaria na famosa cena do massacre no filme “O Couraçado Potemkin” de 1925.

Odessa foi fundada em 1794 por decreto de Catarina, a Grande, que via na baía natural o local ideal para um porto comercial. Em poucas décadas, a cidade tornou-se o principal porto de exportação de cereais do Império Russo. Comerciantes gregos, italianos, judeus e franceses estabeleceram-se aqui, criando uma atmosfera cosmopolita que sobrevive na arquitetura e na mentalidade local.

O Teatro de Ópera e Ballet de Odessa, construído em 1887 em estilo barroco vienense, tem uma acústica considerada entre as melhores do mundo. O interior, com cinco níveis de camarotes, cristais e dourados, rival com os grandes teatros europeus. Os bilhetes para espectáculos custavam, antes do conflito, uma fracção do preço praticado na Europa Ocidental.

As praias de Odessa estendem-se ao longo da costa a sul da cidade. Arcadia, a mais popular, combina areia com uma zona de bares e discotecas que animam as noites de verão. Lanzheron, mais familiar, fica junto ao Parque Shevchenko.

Carcóvia (Kharkiv)

A Praça da Liberdade de Carcóvia é uma das maiores praças urbanas da Europa, com 12 hectares de área. O edifício Derzhprom, construído entre 1925 e 1928, domina um dos lados com a sua silhueta construtivista. Quando foi concluído, era o maior edifício de escritórios da União Soviética e um símbolo do optimismo da era industrial.

Carcóvia foi a primeira capital da Ucrânia soviética, de 1919 a 1934. A cidade desenvolveu-se como centro industrial e universitário, com mais de 30 instituições de ensino superior e uma população estudantil significativa. O metro, inaugurado em 1975, decora as suas estações com mármore, mosaicos e lustres, seguindo a tradição soviética de transformar o transporte subterrâneo em “palácios para o povo”.

A Catedral da Assunção ergue a sua torre de 90 metros sobre o centro histórico. A construção original data do século XVII, mas o edifício atual é uma reconstrução do período soviético. A catedral vizinha da Anunciação, em estilo neo-bizantino, foi construída entre 1888 e 1901 com tijolos de duas cores que criam padrões geométricos nas fachadas.

Kamianets-Podilskyi

O castelo de Kamianets-Podilskyi ocupa uma península rochosa quase completamente rodeada pelo rio Smotrych, que escavou um canyon de 50 metros de profundidade. A única ligação ao exterior faz-se por uma ponte de pedra do século XVI. Esta posição natural de defesa tornou a fortaleza praticamente inconquistável durante séculos.

As muralhas que sobrevivem datam principalmente dos séculos XIV a XVII, mas a fortificação do local remonta pelo menos ao século XI. Polacos, lituanos, otomanos e russos disputaram o controlo da cidade. Em 1672, o Império Otomano conquistou a fortaleza e construiu um minarete junto à catedral católica — ambos ainda de pé, lado a lado.

A cidade velha, no interior da península, preserva edifícios arménios, polacos e ucranianos. O Ayuntamento, no centro, data do século XVI. Os festivais medievais de verão trazem cavaleiros, arqueiros e artesãos que recriam a vida da época.

Chernobyl e Pripyat

À 1h23 da madrugada de 26 de abril de 1986, o reator número 4 da central nuclear de Chernobyl explodiu. A explosão libertou 400 vezes mais radiação do que a bomba de Hiroshima. A cidade de Pripyat, a três quilómetros da central, foi evacuada 36 horas depois. Os 49.000 habitantes tiveram duas horas para recolher os seus pertences. A maioria nunca regressou.

Desde 2011, a Zona de Exclusão de 30 quilómetros em redor da central está aberta a visitas turísticas controladas. Os tours partem de Kiev, demoram um dia inteiro e incluem a passagem por detectores de radiação à entrada e à saída. Os níveis de radiação nas áreas visitáveis são considerados seguros para exposições breves.

Pripyat é uma cápsula do tempo soviética. O parque de diversões, com a sua roda gigante que nunca chegou a funcionar, tornou-se símbolo do desastre. As escolas mantêm os livros abertos nas secretárias. O hospital guarda as roupas dos bombeiros que combateram o incêndio nas primeiras horas. A natureza reconquistou a cidade: árvores crescem através do asfalto, lobos e cavalos selvagens vagueiam pelas ruas.

Cárpatos Ucranianos

As montanhas dos Cárpatos atravessam o sudoeste da Ucrânia numa extensão de 280 quilómetros. O ponto mais alto, o Monte Hoverla, atinge 2.061 metros. As encostas cobertas de florestas de abetos e faias dão lugar a pastagens alpinas onde os pastores Hutsul mantêm tradições centenárias.

Os Hutsul são um povo montanhês com cultura própria: música distintiva, artesanato em madeira e lã, arquitetura tradicional. As tserkvas, igrejas de madeira construídas sem pregos, estão classificadas como Património Mundial. As mais antigas datam do século XVI, com interiores cobertos de ícones pintados por artistas locais.

Bukovel é a principal estância de esqui da Ucrânia, com 16 pistas e modernos teleféricos. Yaremche, no vale do rio Prut, serve de base para caminhadas no verão. A cascata de Probiy e o mercado de artesanato Hutsul atraem visitantes durante todo o ano.

Informações Práticas

Antes do conflito, a Ucrânia era um destino acessível. Os preços de alojamento e alimentação eram significativamente inferiores aos da Europa Ocidental. Brasileiros não precisavam de visto para estadias até 90 dias. A moeda local é a hryvnia.

O ucraniano é a língua oficial, embora o russo seja amplamente falado, especialmente no leste. O inglês é limitado fora dos estabelecimentos turísticos das grandes cidades. Aplicações de tradução são úteis.

A melhor época para visitar era a primavera, de abril a junho, ou o outono, de setembro a outubro. Os invernos são frios, com temperaturas que podem descer abaixo dos 20 graus negativos, mas ideais para esquiar nos Cárpatos.

A Ucrânia faz fronteira com sete países: Polónia, Eslováquia, Hungria, Roménia, Moldávia, Bielorrússia e Rússia. Antes do conflito, era possível combinar a visita com roteiros pela Europa Central ou Oriental.

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