Às 5h30 da manhã, quando o primeiro raio de sol toca as formações rochosas da Capadócia, mais de 150 balões de ar quente começam a subir em silêncio. Os passageiros, ainda ensonados, seguram as suas chávenas de chá turco enquanto o piloto acende o queimador. Em baixo, as “chaminés das fadas” — torres de rocha esculpidas pela erosão vulcânica ao longo de milhões de anos — transformam-se num mar de sombras douradas.
Este é apenas um dos momentos que fazem das principais cidades da Turquia um dos destinos mais procurados do mundo. O país recebeu 50 milhões de turistas em 2023, tornando-se o sexto destino mais visitado do planeta. A razão é simples: poucas nações conseguem oferecer, num só território, mesquitas bizantinas, praias mediterrânicas, ruínas romanas e paisagens lunares.
A Turquia ocupa uma posição geográfica singular. É o único país do mundo que se estende por dois continentes, com o Estreito de Bósforo a separar a Europa da Ásia. Esta localização moldou a sua história: foi capital de três impérios (Romano, Bizantino e Otomano) e ponto de passagem obrigatório na Rota da Seda. O resultado é uma mistura cultural que se sente na arquitetura, na gastronomia e no quotidiano das suas cidades.
Uma viagem completa pela Turquia exige pelo menos duas semanas, embora seja possível conhecer os pontos principais em dez dias. A primavera e o outono oferecem o melhor equilíbrio entre clima agradável e menos multidões. Brasileiros não precisam de visto para estadias até 90 dias.
Istambul
A maior cidade da Turquia acorda cedo. Às 6 da manhã, os pescadores já lançam as linhas da Ponte Gálata enquanto os primeiros ferries cruzam o Bósforo carregados de passageiros a caminho do trabalho. Na margem europeia, os minaretes da Mesquita Azul e os pináculos da Hagia Sophia recortam-se contra o céu que começa a clarear.
Istambul tem 15 milhões de habitantes e uma história de 2.700 anos. Foi Bizâncio para os gregos, Constantinopla para os romanos e bizantinos, e Istambul para os otomanos que a conquistaram em 1453. Cada civilização deixou a sua marca. A Hagia Sophia, construída em 537 como basílica cristã, convertida em mesquita em 1453 e transformada em museu em 1935, voltou a funcionar como mesquita em 2020. A sua cúpula de 56 metros de altura foi durante mil anos a maior do mundo.
O Palácio Topkapi, residência dos sultões otomanos durante quatro séculos, estende-se por 700.000 metros quadrados no promontório que domina o Bósforo. O Grande Bazar, com mais de 4.000 lojas organizadas em 60 ruas cobertas, funciona ininterruptamente desde 1461. A Cisterna Basílica, construída no século VI para abastecer de água o palácio imperial, guarda 336 colunas de mármore numa catedral subterrânea.
Um cruzeiro pelo Bósforo ao pôr do sol revela as duas faces de Istambul. Na margem europeia, os palácios otomanos sucedem-se como pérolas num colar. Na margem asiática, as casas de madeira tradicionais agarram-se às encostas. A ponte que liga os dois continentes estende-se 1.560 metros sobre águas que mudam de cor conforme a luz.
Capadócia
A paisagem da Capadócia não se parece com nenhuma outra na Terra. Há 60 milhões de anos, três vulcões cobriram a região com camadas de cinza e lava. A erosão fez o resto: escavou vales, esculpiu torres e deixou expostas rochas de cores diferentes — rosa, laranja, creme — que mudam de tom conforme a hora do dia.
Os habitantes da Capadócia aprenderam cedo a usar a rocha macia a seu favor. Escavaram igrejas, mosteiros, casas e cidades inteiras nas formações rochosas. Em Derinkuyu, a maior cidade subterrânea descoberta na região, chegaram a viver 20.000 pessoas distribuídas por oito níveis que desciam 85 metros abaixo da superfície. O sistema incluía estábulos, armazéns, igrejas e poços de ventilação.
O Museu a Céu Aberto de Göreme reúne 30 igrejas escavadas na rocha entre os séculos X e XII. Os frescos bizantinos que decoram as paredes e tetos sobreviveram às intempéries graças à proteção natural da rocha. A Igreja Escura (Karanl?k Kilise) preserva as cores mais vivas, justamente porque a ausência de janelas impediu a deterioração pelos raios solares.
O voo de balão ao amanhecer tornou-se o cartão de visita da Capadócia. Cerca de 150 balões levantam voo em simultâneo nas manhãs de tempo estável, criando um espetáculo que atrai fotógrafos do mundo inteiro. O voo dura aproximadamente uma hora e custa entre 150 e 300 euros, dependendo da época e do operador.
Ancara
A capital da Turquia vive à sombra de Istambul nas preferências dos turistas, mas guarda tesouros que justificam uma paragem. O Museu das Civilizações da Anatólia, instalado num carançarai otomano do século XV, expõe artefactos que cobrem 10.000 anos de história — desde estátuas da deusa-mãe do Neolítico até relevos hititas e assírios.
O Mausoléu de Atatürk domina uma colina no centro da cidade. Kemal Atatürk fundou a República da Turquia em 1923 e escolheu Ancara, então uma pequena cidade de 30.000 habitantes, como capital em substituição de Istambul. O complexo monumental que guarda os seus restos mortais combina elementos da arquitetura hitita e otomana com linhas modernistas.
O Castelo de Ancara, construído pelos bizantinos sobre fundações romanas, oferece vistas panorâmicas sobre a cidade moderna. As ruelas do bairro antigo que o rodeia mantêm casas otomanas tradicionais convertidas em restaurantes e lojas de artesanato.
Antalya
A Riviera Turca estende-se por 600 quilómetros ao longo da costa mediterrânica, e Antalya é a sua capital. A cidade combina dois mundos: o bairro histórico de Kaleiçi, apertado entre muralhas romanas e otomanas, e a orla moderna de praias e resorts que se estende para leste e oeste.
Em Kaleiçi, as ruas de paralelepípedos descem até ao antigo porto romano. As casas otomanas de madeira, com as suas janelas salientes e portadas coloridas, foram convertidas em hotéis-boutique e restaurantes. O Portão de Adriano, construído em 130 d.C. para celebrar a visita do imperador romano, marca a entrada na cidade velha.
As praias de Antalya dividem-se em dois tipos: as de cascalho, como Konyaalt?, com águas transparentes que descem rapidamente em profundidade; e as de areia, como Lara, mais adequadas para famílias. As montanhas Bey Da?lar?, cobertas de neve no inverno, servem de cenário a ambas.
Éfeso
A Biblioteca de Celso ergue-se no final da Rua dos Curetes como se esperasse ainda os leitores que a frequentavam há dois mil anos. A fachada de dois andares, reconstruída a partir das pedras originais, tinha nichos para 12.000 rolos de papiro. Era a terceira maior biblioteca do mundo antigo, depois de Alexandria e Pérgamo.
Éfeso foi a segunda maior cidade do Império Romano, com uma população estimada de 250.000 habitantes no século I. O grande teatro, escavado na encosta, acomodava 25.000 espectadores. A Rua de Mármore, polida pelos passos de gerações, ligava o teatro ao porto — hoje assoreado e situado a seis quilómetros da costa.
O Templo de Ártemis, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, ficava nos arredores. Resta apenas uma coluna solitária erguida sobre um campo de ruínas. A cidade de Selçuk, a três quilómetros, serve de base para a visita. O bilhete de entrada em Éfeso custa cerca de 30 euros.
Pamukkale
A água que brota das nascentes termais de Pamukkale contém carbonato de cálcio dissolvido. Quando escorre pelas encostas e arrefece, o mineral precipita-se e forma terraços de calcário branco que parecem piscinas escavadas na neve. O nome turco significa “castelo de algodão” — descrição adequada para esta formação geológica única.
Os romanos conheciam estas fontes e construíram no topo da colina a cidade termal de Hierápolis. As ruínas incluem um teatro bem preservado, uma necrópole com mais de 1.200 túmulos e a Piscina de Cleópatra, onde é possível nadar entre colunas antigas caídas durante um terramoto. A água mantém-se a 36 graus durante todo o ano.
A visita aos terraços faz-se descalço para proteger o calcário. O melhor horário é ao final da tarde, quando a luz do sol poente realça os contrastes entre o branco dos terraços e o azul das piscinas naturais.
Bodrum
Bodrum foi Halicarnasso na Antiguidade, cidade natal de Heródoto e sede de uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. O Mausoléu de Halicarnasso, túmulo do rei Mausolo, deu nome a todos os mausoléus que se lhe seguiram. Restam apenas as fundações, expostas num pequeno museu junto ao centro da cidade.
A Bodrum moderna é outra coisa. As casas brancas com buganvílias roxas descem até ao porto onde os iates se alinham em filas cerradas. O Castelo de São Pedro, construído pelos Cavaleiros de Rodes no século XV com pedras do mausoléu destruído, domina a baía e abriga o Museu de Arqueologia Subaquática.
A vida noturna de Bodrum é a mais animada da costa turca. Os bares ao longo do porto enchem-se a partir das 22h e não fecham antes das 4 da manhã. A cidade atrai turcos endinheirados, europeus em busca de sol e uma comunidade de expatriados que aqui se instalou.
Fethiye e Ölüdeniz
A Lagoa Azul de Ölüdeniz aparece em todos os rankings das praias mais bonitas do mundo. A língua de areia branca separa as águas calmas da lagoa do mar aberto, criando um contraste de tons de azul que parece retocado digitalmente — mas é real. O acesso à lagoa é pago (cerca de 3 euros) e o estacionamento enche cedo nos meses de verão.
Do topo do Monte Babada?, a 1.960 metros de altitude, partem os voos de parapente tandem que sobrevoam a lagoa. O voo dura cerca de 40 minutos e aterra na praia. É considerada uma das melhores experiências de parapente do mundo.
Fethiye, a poucos quilómetros, oferece túmulos lícios escavados nas falésias que dominam a cidade. Kayaköy, a vila fantasma abandonada em 1923 após a troca de populações entre a Grécia e a Turquia, preserva centenas de casas de pedra que se deterioram lentamente entre oliveiras e figueiras.
Konya
Todas as noites, no Museu de Mevlana em Konya, os dervixes rodopiantes executam a cerimónia Sema. Os dançarinos vestem mantos brancos e chapéus cónicos de feltro. Quando começam a rodar, os mantos abrem-se como flores. O braço direito aponta para o céu, o esquerdo para a terra. O movimento representa a ascensão espiritual da alma em direção a Deus.
Mevlana Celaleddin Rumi fundou a Ordem dos Dervixes Rodopiantes em Konya no século XIII. O seu túmulo, coberto por um pano verde bordado a ouro, é o ponto central do museu e local de peregrinação. Milhares de visitantes, muçulmanos e não muçulmanos, vêm prestar homenagem ao poeta místico cujos versos são ainda hoje os mais lidos no mundo islâmico.
Konya foi capital do Sultanato de Rum e preserva mesquitas seljúcidas de arquitetura distinta, com portais elaboradamente decorados e minaretes de azulejos turquesa. A gastronomia local inclui especialidades que não se encontram noutras regiões da Turquia.
Trabzon e o Mar Negro
O Mosteiro de Sumela agarra-se a uma falésia vertical a 1.200 metros de altitude, rodeado por florestas de abetos e faias. Os monges bizantinos que aqui se instalaram no século IV escolheram bem o local: durante séculos, o mosteiro foi inacessível a invasores. Os frescos que decoram a igreja principal datam do século XVIII.
Trabzon, na costa do Mar Negro, é a porta de entrada para esta região menos visitada da Turquia. As paisagens são diferentes do resto do país: montanhas verdes, chuva frequente, aldeias de casas de madeira. A gastronomia também muda, com ênfase em pratos à base de milho e anchovas.
A Igreja de Santa Sofia de Trabzon, construída no século XIII, preserva frescos bizantinos notáveis. O interior foi convertido em mesquita em 2013, mas os frescos permanecem visíveis.
Bursa
Bursa foi a primeira capital do Império Otomano, de 1326 a 1365. A Grande Mesquita, com as suas vinte cúpulas e duas torres, estabeleceu o modelo que os otomanos desenvolveriam nas mesquitas imperiais de Istambul. O interior organiza-se em torno de uma fonte de ablução coberta por uma claraboia — inovação arquitetónica que permitia luz natural e ventilação.
A cidade é famosa pelas suas termas, alimentadas por fontes termais nas encostas do Monte Uluda?. O bairro de Çekirge concentra os banhos históricos, alguns com mais de 600 anos. No inverno, o Monte Uluda? transforma-se na estância de esqui mais popular da Turquia.
O Iskender kebab, variante do döner servido sobre pão com manteiga derretida, molho de tomate e iogurte, foi inventado em Bursa no século XIX. A cidade reivindica a paternidade do prato e os restaurantes que servem a receita original competem pela atenção dos visitantes.
Ka?
Ka? resiste ao turismo de massas que transformou outras vilas da costa mediterrânica. As ruas estreitas do centro histórico preservam casas gregas tradicionais convertidas em pensões e restaurantes familiares. O anfiteatro helenístico, com vista para o mar, recebe ocasionalmente concertos ao ar livre.
As ruínas submersas de Kekova, acessíveis em passeios de barco com fundo de vidro ou caiaque, mostram os restos de uma cidade parcialmente afundada por um terramoto no século II. As fundações das casas, as escadas e os túmulos lícios são visíveis através da água cristalina.
A praia de Kaputa?, a 20 quilómetros de Ka?, ocupa uma pequena enseada no sopé de uma falésia. O acesso faz-se por uma escadaria de 170 degraus. A areia branca e as águas turquesa justificam o esforço.
Informações Práticas
A melhor época para visitar a Turquia é a primavera, de abril a maio, ou o outono, de setembro a outubro. O verão é quente, especialmente no interior e na costa sul, com temperaturas que ultrapassam frequentemente os 35 graus. O inverno é frio na Capadócia e no planalto central, mas ameno na costa mediterrânica.
A moeda local é a lira turca, sujeita a flutuações significativas nos últimos anos. Euros e dólares são aceites em muitos estabelecimentos turísticos, mas a taxa de câmbio é geralmente desfavorável. Os multibancos estão disponíveis em todas as cidades.
O transporte interno é eficiente. Voos domésticos ligam Istambul às principais cidades em uma a duas horas. Os autocarros de longa distância são confortáveis e económicos. O comboio de alta velocidade conecta Istambul a Ancara em quatro horas.
A gastronomia turca figura entre as três mais importantes do mundo, ao lado da francesa e da chinesa. Os kebabs variam de região para região. O café turco, preparado em pequenas cafeteiras de cobre, é servido com as borras. O raki, licor anisado diluído com água, acompanha as refeições em ocasiões especiais.
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