Na Praça de São Pedro, num domingo de manhã, mais de 50.000 pessoas aguardam a bênção papal. O número supera em sessenta vezes a população total do Vaticano. Com cerca de 800 residentes permanentes distribuídos por 0,44 quilómetros quadrados, a Santa Sé é o país menos populoso do mundo — e possivelmente o mais visitado proporcionalmente.

Os países menos populosos do mundo partilham características curiosas. A maioria são ilhas isoladas no Pacífico ou microestados europeus encravados em vizinhos maiores. Alguns são extremamente ricos; outros lutam pela sobrevivência económica. Quase todos enfrentam desafios que as grandes nações desconhecem: como manter serviços públicos com tão poucos contribuintes, como defender-se sem exército, como evitar a emigração que esvaziaria o país.

Para os viajantes, estes países oferecem experiências raras: a possibilidade de conhecer quase toda a população, de percorrer o território inteiro a pé, de sentir que se visitou um lugar verdadeiramente único. A dificuldade de acesso, no caso das ilhas do Pacífico, é compensada pelo isolamento preservado.

Vaticano

O Vaticano não é apenas o país mais pequeno do mundo em população e área. É também o único país completamente rodeado por uma cidade, o único governado por uma monarquia absoluta electiva, o único cuja língua oficial é o latim para efeitos legais.

Os 800 residentes incluem o Papa, cardeais que trabalham na Cúria Romana, a Guarda Suíça e funcionários eclesiásticos. A maioria não nasceu no Vaticano nem tem cidadania permanente: a nacionalidade vaticana está ligada à função e cessa quando a pessoa deixa o cargo ou se reforma.

A Basílica de São Pedro, a maior igreja cristã do mundo, domina a praça desenhada por Bernini no século XVII. A cúpula de Michelangelo eleva-se 136 metros acima do túmulo do apóstolo Pedro. A Capela Sistina, com o tecto pintado pelo mesmo Michelangelo entre 1508 e 1512, é o local onde os cardeais elegem cada novo papa.

Os Museus do Vaticano guardam uma das maiores colecções de arte do mundo: esculturas gregas e romanas, mapas renascentistas, tapeçarias flamengas, pinturas de Rafael. A fila de espera pode atingir várias horas em época alta; os bilhetes online permitem evitar parte da espera.

Nauru

Nauru é uma ilha de 21 quilómetros quadrados no Pacífico Central, a meio caminho entre a Austrália e o Havai. Os seus 10.000 habitantes vivem numa estreita faixa costeira que rodeia um planalto interior devastado pela mineração.

Durante a maior parte do século XX, Nauru foi um dos países mais ricos do mundo per capita. O fosfato acumulado durante milhões de anos por excrementos de aves marinhas era exportado como fertilizante. A receita financiou um estado social generoso: saúde gratuita, educação gratuita, sem impostos. Em 1970, o PIB per capita de Nauru era o segundo mais alto do mundo.

O fosfato esgotou-se nos anos 1990. A economia colapsou. O país que não cobrava impostos passou a depender de ajuda externa. O interior da ilha, onde a mineração removeu 80% do solo, é um deserto de pináculos calcários onde nada cresce. A paisagem lunar serve de aviso sobre a exploração insustentável de recursos.

Para os raros turistas que chegam (dois voos semanais desde Brisbane), Nauru oferece praias de coral, vestígios da ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial e a experiência de visitar um dos países mais remotos e menos conhecidos do planeta.

Tuvalu

Tuvalu pode não existir no final deste século. Os nove atóis que compõem o país elevam-se, no ponto mais alto, apenas cinco metros acima do nível do mar. As previsões sobre a subida das águas devido às alterações climáticas sugerem que Tuvalu será parcial ou totalmente submerso nas próximas décadas.

Os 11.000 habitantes concentram-se maioritariamente em Funafuti, o atol principal. A economia depende de pesca, remessas de emigrantes e uma fonte de receita inesperada: o domínio de internet “.tv”, vendido a empresas de todo o mundo. A Tuvalu recebe milhões de dólares anuais por este acidente geográfico-linguístico.

O país não tem recursos naturais significativos, indústria relevante ou agricultura além da subsistência. A água potável vem da chuva recolhida em cisternas. Quando não chove durante semanas, declara-se emergência hídrica. Os jovens emigram; os velhos ficam.

Visitar Tuvalu exige determinação. Os voos são escassos e caros. O alojamento limita-se a algumas guest houses básicas. Não há atracções turísticas no sentido convencional. O que existe é a oportunidade de conhecer um país que está a desaparecer — literalmente.

Palau

As Rock Islands de Palau são 445 ilhas de calcário cobertas de vegetação que emergem de águas turquesa como cogumelos verdes. Vistas de avião, parecem um quadro surrealista. Os recifes de coral que as rodeiam estão entre os mais biodiversos do planeta.

Palau tem 18.000 habitantes distribuídos por um arquipélago que se estende por 459 quilómetros quadrados de terra e muito mais de mar. A economia depende quase inteiramente do turismo, sobretudo mergulho. O governo implementou políticas ambientais rigorosas: os turistas assinam um “compromisso de Palau” prometendo proteger o ambiente.

O Lago das Águas-Vivas, na Ilha Eil Malk, é único no mundo. Milhões de águas-vivas douradas, isoladas do mar há milhares de anos, evoluíram para perder os tentáculos urticantes. Nadar entre elas, rodeado por uma nuvem dourada pulsante, é uma experiência que não se encontra em mais lado nenhum.

O mergulho em Palau atrai os melhores mergulhadores do mundo. Blue Corner, com as suas correntes fortes e concentração de tubarões e raias, é considerado um dos melhores pontos de mergulho do planeta. Os preços reflectem a reputação: Palau não é um destino económico.

San Marino

San Marino reivindica ser a república mais antiga do mundo ainda em funcionamento. A tradição atribui a fundação a um pedreiro cristão chamado Marino que se refugiou no Monte Titano no século IV para escapar à perseguição romana. A república que se desenvolveu em torno do seu eremitério nunca foi conquistada — nem mesmo por Napoleão, que a respeitou.

Os 34.000 habitantes de San Marino vivem num território de 61 quilómetros quadrados completamente rodeado pela Itália. O centro histórico, no topo do Monte Titano, oferece vistas que se estendem até ao Mar Adriático. As três torres medievais que coroam os picos são o símbolo do país.

San Marino é fácil de visitar num bate-volta desde Rimini ou outras cidades da costa adriática italiana. O teleférico sobe desde Borgo Maggiore até ao centro histórico. As lojas duty-free atraem italianos em busca de produtos mais baratos. Os museus são modestos mas interessantes; o de armas antigas e o de curiosidades são os mais populares.

Mónaco

O Mónaco comprime 39.000 habitantes em 2,02 quilómetros quadrados, tornando-o o país mais densamente povoado do mundo. A falta de espaço levou a construções cada vez mais altas e a projectos de aterro que expandem o território para o mar. A cada década, o principado cresce alguns hectares.

A riqueza do Mónaco é lendária. A ausência de imposto sobre o rendimento atrai milionários de todo o mundo; estima-se que um em cada três residentes seja milionário. Os iates no porto, os carros de luxo nas ruas, as montras das joalharias e os preços dos cafés confirmam a reputação.

O Casino de Monte Carlo, aberto em 1863, é o mais famoso do mundo. O edifício Belle Époque desenhou o arquétipo do casino de luxo que Las Vegas copiaria décadas depois. Os residentes do Mónaco estão proibidos de jogar — uma medida para evitar que as famílias locais se arruinem.

O Grande Prémio de Fórmula 1, disputado nas ruas da cidade desde 1929, é o evento mais prestigiado do calendário automobilístico. Durante o fim-de-semana da corrida, o Mónaco enche-se de visitantes e os preços, já elevados, tornam-se estratosféricos.

Liechtenstein

O Liechtenstein é um dos países mais ricos do mundo per capita, apesar de não ter aeroporto, universidade ou estação de comboio internacional. Os 39.000 habitantes deste principado alpino, encravado entre a Suíça e a Áustria, beneficiam de uma economia baseada em serviços financeiros e indústria de precisão.

O Castelo de Vaduz, residência da família principesca, domina a pequena capital. Não é visitável, mas as vistas do exterior justificam a subida. O Museu de Arte de Liechtenstein guarda a colecção privada dos príncipes, que inclui obras de Rubens e Van Dyck.

No inverno, a estância de esqui de Malbun oferece pistas modestas mas bem cuidadas, adequadas para famílias e iniciantes. No verão, a mesma área transforma-se em destino de caminhadas, com trilhos que atravessam prados alpinos até às cristas das montanhas.

O Liechtenstein é facilmente visitável a partir de Zurique (90 minutos de comboio até Sargans, depois autocarro) ou da Áustria. Muitos viajantes passam apenas algumas horas, o suficiente para carimbarem o passaporte no posto de turismo e comprarem um selo comemorativo.

Ilhas Marshall

As Ilhas Marshall são 29 atóis e 5 ilhas isoladas dispersos por 1,9 milhões de quilómetros quadrados de Oceano Pacífico. A área terrestre total não chega a 200 quilómetros quadrados. Os 42.000 habitantes vivem maioritariamente em Majuro, a capital, e Ebeye.

O atol de Bikini tornou-se mundialmente famoso em 1946, quando os Estados Unidos começaram a testar bombas nucleares nas suas águas. Vinte e três testes depois, incluindo a primeira bomba de hidrogénio (Castle Bravo, em 1954), o atol permanece inabitável. A população foi evacuada e nunca pôde regressar.

Para os mergulhadores, o legado dos testes tem um lado positivo: dezenas de navios de guerra afundados propositadamente para os testes repousam no fundo da lagoa, colonizados por corais e peixes. Os níveis de radiação na água são considerados seguros; os mesmos não se pode dizer das ilhas.

Seychelles

As Seychelles são o país africano menos populoso, com cerca de 100.000 habitantes distribuídos por 115 ilhas no Oceano Índico. A maioria vive em Mahé, Victoria é a capital mais pequena de África, e as praias figuram consistentemente entre as mais bonitas do mundo.

Anse Source d’Argent, na ilha de La Digue, aparece em todos os rankings de praias paradisíacas. As rochas de granito esculpidas pela erosão, a areia branca e as águas calmas criam um cenário que parece demasiado perfeito para ser real. A praia serve de locação para filmes e sessões fotográficas desde há décadas.

O Vallée de Mai, em Praslin, abriga a maior floresta de palmeiras coco-de-mer do mundo. O fruto desta palmeira é o maior do reino vegetal, pesando até 30 quilos. A forma sugestiva dos cocos inspirou lendas: durante séculos, acreditou-se que vinham de árvores submarinas no Jardim do Éden.

As Seychelles são um destino caro, orientado para o turismo de luxo e lua-de-mel. Os resorts nas ilhas privadas cobram centenas de euros por noite. Alternativas mais económicas existem em Mahé e Praslin, mas as Seychelles nunca serão um destino de mochileiros.

São Tomé e Príncipe

O segundo país mais pequeno de África, com 220.000 habitantes, é também um dos menos visitados. As duas ilhas vulcânicas no Golfo da Guiné oferecem florestas tropicais praticamente intocadas, praias desertas e uma herança colonial portuguesa preservada no tempo.

O Pico Cão Grande ergue-se 370 metros acima da floresta como uma agulha de basalto. A formação vulcânica, que parece impossível de escalar, foi na verdade conquistada por alpinistas. Para a maioria dos visitantes, basta admirá-la de longe, emergindo dramaticamente das nuvens.

As roças, antigas plantações de cacau e café do período colonial, estão a ser convertidas em alojamentos turísticos. As casas dos administradores, os hospitais, as escolas — toda a infraestrutura das plantações que sustentaram a economia durante séculos — aguardam visitantes em diferentes estados de restauro.

São Tomé foi o maior produtor de cacau do mundo no início do século XX. O chocolate produzido localmente com métodos artesanais está a ganhar reputação internacional. Provar chocolate são-tomense no local onde os cacaueiros crescem é uma das experiências gastronómicas mais autênticas que África oferece.

Características comuns

Os países menos populosos do mundo enfrentam desafios semelhantes. A escala económica é insuficiente para muitas actividades: não faz sentido construir uma universidade para 10.000 habitantes, nem manter um exército para defender duas ilhas. As soluções passam pela cooperação com vizinhos maiores, pela especialização em nichos económicos ou pela dependência de ajuda externa.

O isolamento geográfico, no caso das ilhas do Pacífico, preservou culturas e ecossistemas únicos — mas também dificulta o acesso a serviços, mercados e oportunidades. A emigração é uma constante: os jovens partem em busca de educação e emprego, deixando populações envelhecidas.

As alterações climáticas ameaçam existencialmente os países insulares de baixa altitude. Tuvalu, Kiribati, Ilhas Marshall — todos podem desaparecer sob as águas nas próximas décadas. Os seus governos participam nas negociações climáticas internacionais com uma urgência que as grandes potências emissoras raramente demonstram.

Para os viajantes, estes países oferecem experiências que a escala torna impossíveis noutros lugares: conhecer uma percentagem significativa da população, percorrer o território inteiro, sentir que se visitou um lugar completo. A dificuldade de acesso filtra os turistas; quem chega encontra destinos autênticos preservados do turismo de massas.

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