Em janeiro de 2021, os habitantes de uma pequena aldeia austríaca acordaram para uma mudança que esperavam há décadas. As placas à entrada da localidade, roubadas tantas vezes por turistas que a câmara municipal deixara de as substituir, mostravam agora um nome diferente. Fucking passava a chamar-se Fugging. A votação fora unânime.

Os nomes de países estranhos e lugares curiosos revelam histórias que os mapas não contam. Por trás de cada topónimo há séculos de conquistas, migrações, mal-entendidos linguísticos e, por vezes, coincidências que fazem sorrir. A geografia política do mundo é um palimpsesto de nomes que se sobrepõem, substituem e transformam conforme mudam os poderes.

Alguns países têm nomes que usamos diariamente sem saber que os seus habitantes usam nomes completamente diferentes. Outros mudaram de nome por razões políticas, religiosas ou simplesmente práticas. E depois há os lugares cujos nomes, traduzidos para outras línguas, adquirem significados inesperados.

Países com nomes diferentes do original

A Alemanha é o exemplo mais extremo de um país com múltiplos nomes. Os alemães chamam ao seu país Deutschland, que significa “terra do povo” em alemão antigo. Os ingleses dizem Germany, derivado da palavra latina Germania, que os romanos usavam para designar as tribos a leste do Reno. Os franceses dizem Allemagne, referência aos alamanos, uma confederação de tribos germânicas. Os polacos dizem Niemcy, que significa “os mudos” — aqueles que não falam uma língua eslava. Os finlandeses dizem Saksa, derivado dos saxões.

A Grécia apresenta um caso semelhante. Os gregos chamam ao seu país Hellas ou Ellada, nomes derivados de Hellen, o mítico antepassado de todos os helenos. O nome Grécia vem do latim Graecia, que os romanos usavam para designar a região. A origem é obscura — possivelmente relacionada com uma tribo chamada Graikoi.

A Índia é oficialmente conhecida como Bharat em hindi, nome derivado do rei mítico Bharata. O nome Índia vem do rio Indo (Sindhu em sânscrito), adaptado pelos persas como Hindu e depois pelos gregos como Indos. Os europeus aplicaram o nome ao subcontinente inteiro, embora o rio Indo corra maioritariamente no que é hoje o Paquistão.

A Geórgia chama a si própria Sakartvelo, que significa “terra do povo de Kartli”. O nome Geórgia nada tem a ver com São Jorge (teoria popular mas incorrecta) nem com o rei Jorge de Inglaterra. Vem provavelmente do persa Gurgan, que significa “terra dos lobos”.

A Albânia é Shqipëria para os albaneses, nome que significa “terra das águias”. A águia de duas cabeças figura na bandeira nacional. O nome Albânia vem do latim medieval, possivelmente relacionado com a tribo Albani mencionada pelo geógrafo Ptolomeu no século II.

Países que mudaram de nome

Myanmar chamou-se Birmânia até 1989, quando a junta militar que governava o país mudou oficialmente o nome. A decisão foi controversa: alguns países e organizações continuam a usar Birmânia como forma de protesto político contra o regime. Myanmar é na verdade o nome literário do país em birmanês; Burma é a versão coloquial do mesmo nome.

O Irão foi conhecido como Pérsia no Ocidente até 1935. Nesse ano, o xá Reza Pahlavi pediu à comunidade internacional que usasse o nome que os iranianos sempre tinham usado: Irão, que significa “terra dos arianos”. A Pérsia era apenas uma província do império, a que os gregos deram o nome de todo o território.

O Sri Lanka chamou-se Ceilão até 1972, quando o país adoptou uma nova constituição republicana. O nome Sri Lanka significa “ilha resplandecente” em sânscrito. Ceilão era uma corrupção portuguesa de Sinhala, o nome do povo maioritário da ilha.

A Turquia pediu em 2022 para ser oficialmente designada como Türkiye em todas as línguas. A motivação principal foi distanciar o país da associação com a palavra inglesa turkey (peru, a ave). A mudança foi aceite pelas Nações Unidas, embora a adopção noutras línguas tenha sido gradual.

Burkina Faso chamou-se Alto Volta até 1984. O novo nome combina palavras de duas línguas locais: burkina significa “homens íntegros” em mooré, e faso significa “terra” em dioula. O país quis afirmar uma identidade africana distinta da herança colonial francesa.

Nomes curiosos em português

Timor-Leste é um pleonasmo geográfico. Timor vem do malaio timur, que significa “leste”. O nome completo do país significa, portanto, “Leste-Leste”. A redundância distingue a metade oriental da ilha, independente desde 2002, da metade ocidental, que pertence à Indonésia.

Montenegro é um nome em italiano, não em montenegrino. Significa “montanha negra”, tradução directa do nome local Crna Gora. Os venezianos, que dominaram a costa adriática durante séculos, difundiram o nome italiano que o resto da Europa adoptou.

A Costa do Marfim pediu oficialmente em 1986 que os outros países parassem de traduzir o seu nome. O governo queria que Côte d’Ivoire fosse usado em todas as línguas, como acontece com outros topónimos franceses. A adesão foi parcial: em português e outras línguas, a tradução persiste no uso comum.

Lugares com nomes inesperados

Fugging (anteriormente Fucking) é uma aldeia de 100 habitantes na Alta Áustria. O nome, documentado desde 1070, deriva provavelmente de um homem chamado Focko que se estabeleceu na região. A semelhança com a palavra obscena inglesa transformou a aldeia em atracção turística involuntária. As placas eram roubadas constantemente. Os visitantes posavam para fotografias. Em 2020, os habitantes votaram pela mudança.

Hell é uma cidade no estado de Michigan, Estados Unidos. O nome tem origem incerta — possivelmente derivado de uma expressão alemã ou de uma descrição das condições do terreno pantanoso. Os habitantes abraçaram o humor involuntário: vendem postais “do Inferno” e permitem que qualquer pessoa seja “presidente de Hell” por um dia mediante pagamento.

Batman é uma cidade de 600.000 habitantes no sudeste da Turquia. O nome vem do rio Batman que atravessa a região. Em 2008, o presidente da câmara ameaçou processar a Warner Bros. por usar o nome sem autorização nos filmes do super-herói. O processo nunca avançou.

Dildo é uma vila na província canadiana de Terra Nova e Labrador. A origem do nome é disputada: algumas teorias apontam para uma forma de remo usada pelos pescadores do século XVII. A vila tem cerca de 1.200 habitantes e recebe visitantes curiosos atraídos pelo topónimo.

Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch é uma vila galesa com 58 letras no nome — o segundo topónimo mais longo do mundo. Significa “Igreja de Santa Maria no vale da avelaneira branca perto do redemoinho rápido e da Igreja de São Tisílio da gruta vermelha”. O nome foi inventado no século XIX para atrair turistas à nova estação de comboio. Funcionou.

Nomes difíceis de pronunciar

A Islândia tem uma relação complicada com os turistas que tentam pronunciar os seus topónimos. Eyjafjallajökull, o vulcão que paralisou o tráfego aéreo europeu em 2010, tornou-se famoso precisamente pela dificuldade que os jornalistas tinham em pronunciá-lo. O nome significa “glaciar da montanha das ilhas” — cada parte faz sentido em islandês.

Outras cidades islandesas desafiam igualmente as línguas estrangeiras: Kirkjubæjarklaustur (convento da fazenda da igreja), Hafnarfjörður (fiorde do porto) e Seyðisfjörður (fiorde de Seyðir). A língua islandesa mudou pouco desde a era viking, preservando sons e combinações de letras que desapareceram noutras línguas nórdicas.

A política dos nomes

Os nomes geográficos são frequentemente campos de batalha política. A Macedónia do Norte chamou-se simplesmente Macedónia até 2019, quando um acordo com a Grécia resolveu uma disputa de décadas. Os gregos objectavam ao uso do nome, argumentando que Macedónia era uma região histórica grega. O compromisso permitiu a adesão do país à NATO.

A Bielorrússia significa “Rússia Branca” em várias línguas eslavas. O governo bielorrusso tem alternado entre aceitar e rejeitar esta associação com a Rússia, consoante o clima político. Alguns preferem Belarus, transliteração directa do nome local que evita a referência à Rússia.

A disputa sobre os nomes de Taiwan, República da China e China popular envolve questões de soberania e reconhecimento internacional. O Camboja mudou de nome várias vezes conforme mudava o regime: Camboja, Kampuchea, República Khmer, Kampuchea Democrático. Cada mudança reflectia uma ruptura política.

Por que variam os nomes

A variação nos nomes dos países tem explicações históricas e linguísticas. Os europeus medievais davam nomes baseados nas tribos que encontravam nas fronteiras — daí os múltiplos nomes para a Alemanha. Os comerciantes persas e árabes difundiram nomes diferentes dos usados localmente. Os colonizadores impuseram topónimos europeus que os países independentes mais tarde rejeitaram.

A tradução automática dos nomes geográficos era a norma até recentemente. Cada língua adaptava os topónimos à sua fonética e ortografia. Esta prática está a mudar: cada vez mais países pedem que os seus nomes sejam usados na forma original, não traduzida. Côte d’Ivoire, Türkiye e Belarus são exemplos recentes desta tendência.

Por trás de cada nome de país há uma história. Às vezes é uma história de conquista, outras vezes de resistência. Por vezes é um mal-entendido linguístico preservado durante séculos. E ocasionalmente é apenas uma coincidência que faz os visitantes sorrir ao ver a placa à entrada da localidade.

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